domingo, 29 de junho de 2014

As Cartas.



Não sei em qual lugar da montanha estou, mas a fé não faltará. 


Há alguns dias, ao acordar, como de costume, falei com Deus, levantei-me e fui até a janela. Quando a abri, vi que o dia estava chuvoso. Um dia frio. Fiquei lá por alguns minutos, olhando as folhas caídas no chão molhado e ouvindo o barulho da rua. A brisa fria que vinha de encontro ao meu rosto trazia o cheiro de terra molhada, cheiro de paz. As plantas estavam cobertas de orvalho. As gotas d'água, que caiam do telhado, faziam música. Desse tipo de música que toca a alma da gente. Os pássaros estavam quietos... quase um convite a ficar quieta também no meu canto. Os pensamentos foram longe. O orvalho, o vento, os sons, os pássaros... Um dia vestido de água. Vez em quando faz bem ter dias assim. Eu sei que o sol está lá.

De repente, o cheiro de café desviou meus pensamentos. Apressei-me para o banho. Enquanto eu vestia uma roupa, meus olhos passearam pelo quarto... A velha caixinha de madeira num canto do armário pedia para ser aberta. A caixinha onde guardo as cartas que recebi de minha avó.

Sem dúvida,  era um dia para recordar. Um dia perfeito para ler cartas.  Após tomar o café e participar da conversa que acontecia na cozinha, voltei para o quarto, peguei a caixinha e acomodei-me na cama. Algumas cartas, pétalas de flores secas e um terço com algumas contas quebradas, de muitas Ave-Marias, de uma vida de oração. Os papéis velhos, amarelados pelo tempo, já impregnados com o cheiro da madeira são provas de um amor que não fenece, de um coração que ficou aqui. Testemunhas do que está gravado em outra caixinha... Esta que bate, que dói e que cabe um mundo. São provas de que a tinta das esferográficas foi além.

Minha avó morava no interior do estado e eu fui estudar na capital. Não tínhamos telefone. Nesse tempo, esse aparelho fantástico, que nos faz ouvir a voz de quem está longe, era um artigo de luxo. Na falta de telefone, nossas vozes ecoavam nos papéis e adentravam nossas almas. Eu sentia o cheiro do talco que ela usava, misturado às pétalas que enfeitavam as cartas. Era uma espécie de ritual... um desejo de perfumar a vida, as dores, as alegrias, a saudade... um jeito de criar a presença. Ainda posso ouvir a sua voz tão querida em cada palavra escrita, do jeitinho que ela sabia. Pouco sabia, mas me bastava. Não entendia muito de gramática. Entendia bem de costurar, de cuidar... um talento incrível. É um mistério o sentimento que faz com que nos encantemos por outra vida como se fosse a nossa. Que nos faz felizes como a flor que treme orvalhada. Ser alimento. Isso é grande.

Há muita beleza no ato de enviar e receber cartas.  Às vezes, as notícias eram boas,  outras vezes não. Boas ou ruins, as lágrimas sempre me faziam companhia. Nesses momentos, eu partia para onde está o meu coração, como faço agora. Entendo bem o que disse Rubem Alves: "... Cartas são escritas não para dar notícias, não para contar nada, mas para que mãos separadas se toquem ao tocarem a mesma folha de papel". Isso era tudo. É tudo. Aleatoriamente, peguei uma carta. É uma carta muito especial, de um tempo de muito desânimo. Eu pensava em desistir. Estava longe de casa e ainda pouco acostumada à vida na capital. Um peixe fora d'água. Uma menina, apenas uma menina querendo voltar para aquele lugar onde era tudo mais fácil, onde havia o calor do colo materno, o conforto da segurança. Todo esse sentimento era enviado para ela através das cartas. E eu rezava para que a resposta fosse: "Volte". Pelo contrário, ela dizia: "Fique aí. E seja forte". Uma carta repleta de mil palavras de força e incentivo. Ela tinha razão. Eu sentia medo do novo, das mudanças. Chorei muito, mas fiquei e enfrentei cada medo com coragem. Tantos ensinamentos... Minha avó era uma mulher cheia de virtudes. Ler: "Minha filha, não há montanha alta demais quando botamos fé na subida. Nunca desista de lutar. Tenha coragem. Você pode", era tudo que eu precisava. Ela acreditava em mim mais do que eu. Assim, tive que aprender a acreditar também. 

Hoje, eu sei... o véu que veste a minha alma é de esperança. Foi costurado cuidadosamente pelo tempo das dificuldades, das alegrias e, sobretudo, pelas lições aprendidas em um “livro”, de único exemplar, chamado "Maria, minha avó". Nesse "livro", aprendi que o amor é isto: colocar em meu peito um coração que não é o meu... O meu está lá, está ali... E por estar, enche-me de vida.

Carrego em mim tudo o que aprendi com ela, o valor da gratidão, da  amizade, do amor, do respeito, da honestidade e da solidariedade. Minha avó falava da importância de olhar para os outros e mostrar o coração. De dar lugar ao amor, à confiança, à segurança... Ela dizia que pelo caminho eu encontraria pessoas de todos os tipos, algumas me fariam bem, outras não. E que a justiça divina não falha, que a paciência e o tempo trazem todas as respostas, colocam as coisas no lugar.

Reler cada palavra desta carta me fez recordar dos dias lindos, dos abraços, do silêncio que falava, do olhar cuidadoso. Alimentou em mim a certeza de que dias muito mais lindos virão. A certeza de que não paro aqui. Jamais desistirei de lutar. Não sei em qual lugar da montanha estou, mas a fé não faltará. Se, por qualquer que seja a razão, eu escorregar e descer um passo, em seguida subirei dois. É para o alto que vou. É para frente que caminho.

As cartas estão todas aqui... As que leio e as que sinto, guardadas em suas respectivas caixinhas...  Sempre serão lidas, sempre serão força, sempre serão voz, sempre serão luz... Testemunhas. O tempo não apaga.

E
o dia chuvoso e frio fora aquecido... Toquei as mãos daquela que é amada, que se foi, que está!

sábado, 8 de fevereiro de 2014

A menina que mora em mim.


"Sonhar é uma imitação do voo. Só o verso alcança a harmonia que supera os 
contrários - a condição de sermos terra e a aspiração do eterno etéreo." Mia Couto


Dentro de mim mora uma menina. A menina que mora em mim ainda olha para o céu, à noite, e faz pedidos quando vê estrelas cadentes. Se encanta com as fases da lua. Debruçada na janela, confessa à madrugada todos os seus desejos. Tem os mais lindos sonhos... quiçá, futuro. Mas não basta sonhar. Ela quer ser sonho. Faz de cada amanhecer uma oportunidade. Ao acordar, veste sua roupa de viver... e não deixa, na cama, os sonhos. Pinta com as cores mais bonitas a luz do novo dia. Abre portas e janelas como o sol abre o dia. Faz história. Lê histórias. Transforma livros em fragatas. Viaja. Ela ama as palavras... e, com o óleo da paciência, unge cada uma delas. Uma menina corajosa, ousada, forte... eu sou timidez e fragilidade. Cultiva, na alma, um lindo e perfumado jasmineiro. Carrega nas mãos o perfume das flores. Sobe nas árvores mais altas... e, quando cai, os olhos permanecem no céu. É nesse Azul que ela mergulha. Cheia de fé, segue em frente. Tenta. Recomeça. Se eu caio, fico no chão, esperando que ela me levante. Ela não tem medo. O medo é um departamento meu. A função de desacreditar, também. Ela tem a linda mania de ter esperança, de acreditar na vida, nas pessoas, nos sentimentos. Quanto a mim, às vezes, eu queria que a minha vida fosse um carro de bois... assim eu não precisaria ter esperança, apenas rodas - Como disse Fernando Pessoa em um de seus heterônimos.

Às vezes, ela fecha os olhos para ver. Seus olhos veem muito além. Enquanto os meus olhos, abertos, não veem nada. Ela cala para ouvir. Eu quero ser ouvida. Eu mantenho os meus pés no chão, mas ela tem asas. Com meus pés, junto andanças. Com suas asas, ela alcança horizontes. Encontra em cada vento um impulso para voar. Gosta de banho de rio, de mar, de chuva... Pesca, semeia, cultiva, colhe, acolhe.

Ela dança, canta. Encanta. Sempre encontra uma razão para sorrir, porque a vida assim tem mais sabor; porque a felicidade está na doçura de um abraço. Faz dos abraços um encontro perfeito. Assim é possível ter um coração no lado direito do peito. Ser o motivo de um sorriso é sinônimo de felicidade. Eu sofro por tudo e por nada. Ela vive intensamente as alegrias. Faz sorrisos, faz sol, faz dia... Eu nublo, faço chuva, anoiteço. Ela é serena. Eu sou inquieta. Sua serenidade tem mãos suaves. Minha ansiedade tem pés ligeiros. Ela reza, eu rezo. Rezamos. E nos contrários nos entendemos.

Ela não quer o pote de ouro, ela quer o arco-íris. Eu quero a oitava cor. Para ela, o amor é sagrado e, assim como a fé, tira as montanhas de seus lugares. E move todo o céu. Quer ser chama. Quer ser círio. Ser o eterno círio de um coração é o que ela espera da alegria. Segurar uma mão é tudo o que ela espera na caminhada... porque de mãos dadas as paisagens ficam mais bonitas, porque dar de si, é o ápice da caridade, do amor, da amizade.

As qualidades são dela. Os defeitos são meus. Um deles é, vez em quando, esquecer de acordá-la. Há dias assim. De repente, olho para o meu corpo, vejo as roupas antigas, sem cores e percebo que nesse dia me vesti sozinha. Ela estava dormindo. Os dias mais alegres são aqueles em que tomo de empréstimo as suas roupas, são aqueles em que ela faz trança em meus cabelos e me perfuma com jasmim. Com ela o dia é canção, é força, é porta aberta. Se a não ouço, os tropeços são fáceis.

Cuidadora das minhas imperfeições. Cuidadora de mim. Vou aprendendo com ela... a menina que mora em mim. Ora caminha comigo, ora voo com ela. Os quereres são nossos. Uma partilha de aspirações.

Sem ela, nada sou. Sem mim, ela dormiria por toda a vida. Enquanto ela viver, viverei... viveremos.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Solidariedade sempre.





"Não basta fazer coisas boas - é preciso fazê-las bem" Santo Agostinho.

Hoje, olhando os álbuns de fotos, fiz uma retrospectiva dos tantos Natais que participei em uma comunidade carente. Fechei os olhos por um momento e desejei que, no Natal que chegará, a festa seja muito mais bonita e farta de tudo... Amor, amizade, alegrias, fé e esperança de dias melhores para esse povo tão sofrido. Desejei, ainda, que a solidariedade não seja, apenas, uma isolada ação de Natal. Sabemos que Natal é tempo de partilha, de renascimento, de perdão... Sabemos também que nos demais meses do ano há muitas pessoas que acordam e não tem o que comer, que adoecem, que sofrem, que não tem um teto para chamar de seu e que estendem as mãos em busca de socorro. São muito válidas as ações de Natal, onde as pessoas reúnem-se para fazer doações de cestas, brinquedos, roupas, etc... e, assim, proporcionam um Natal melhor para aqueles que precisam. E janeiro? E maio? E setembro? E...? Sempre vi Natal nos outros meses. Sei que é possível fazer mais. É possível fazer sempre. Não há sensação melhor do que ver o Cristo nascer no coração daqueles que, em um dia qualquer, sentiram-se cuidados, olhados, amados... Cristo nasce a cada vez que estendemos as mãos a um irmão. Cristo nasce na gentileza, na educação, na sensibilidade, no olhar amoroso, na ação... Cristo nasce quando perdoamos. Cristo nasce, em um dia qualquer, quando fazemos o que é agradável aos olhos de Deus, quando nos despimos do orgulho, do preconceito, dos sentimentos menores... quando decidimos dizer "não" aos exageros, às escravidões do tempo em que vivemos. Sim, o Cristo nasce todos os dias em cada detalhe, em cada gesto, por menor que seja. 

Que todos façam uma reflexão sobre a verdadeira doação... aquela feita constantemente, capaz de fortalecer a fé, renovar a esperança, devolver a dignidade e a alegria de viver... a que faz o céu acontecer na Terra, que antecipa o nascimento do Menino Jesus. É preciso dar de si. Como disse Santo Agostinho: "Aquele que tem caridade no coração tem sempre qualquer coisa para dar."

Não tenhamos medo de incentivar... Caridade, quando não é vaidade, deve ser exemplo. Sejamos cada vez mais solidários. Olhemos mais para aqueles que precisam. Sejamos mais humanos. Amemos mais. 

Para aqueles, que por uma razão qualquer, não deram o primeiro passo, ainda há muito a ser feito. Experimentem. E, façamos este e os outros Natais, mais bonitos.


sexta-feira, 4 de outubro de 2013

São Francisco - Sinônimo de Amor e Ternura.


"Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa Paz."


Hoje é o dia de São Francisco, um dos santos mais queridos dos católicos. Desde o meu nascimento, ele está presente em minha vida, por promessa, por devoção, por admiração. Busco em nele inspiração para ser uma pessoa melhor a cada dia.

Francisco renunciou a uma vida de conforto e ao lado da pobreza seguiu os passos de Jesus. Conviveu com os pobres e doentes. Encontrava o Jesus humano em cada rosto necessitado que encontrava em suas missões. E não hesitava em ajudar. Percorreu muitos lugares com o objetivo de levar o evangelho a quem não o conhecia. Viveu o cristianismo com muita alegria, sensibilidade e leveza. Embora se sentisse pecador, pequeno e miserável, também sentiu as mãos de Deus o segurando. Acolheu cada ensinamento e entendeu que, se todos nós somos filhos de Deus, somos irmãos de toda a criação. Assim, chamou  a tudo de irmão e irmã... a todos os animais, até mesmo as criaturas mais insignificantes diante de outros olhos, o sol, a lua, as estrelas mais distantes, o vento que o tocava... O que causava dor e sofrimento, como a irmã doença, a irmã morte... E a tudo recebia como um presente do céu. Para ele, não havia distinção. Cumpriu com zelo o mandamento: "Amai-vos uns aos outros, como eu vos amo", João 15:12. Sua missão era árdua, reconstruir uma Igreja em ruínas. Desejava um mundo mais fraterno. Guiado pelo espírito de fraternidade, levou amor, onde havia ódio, perdão onde havia ofensa, união onde havia discórdia, fé onde havia dúvida, verdade onde havia erro, alegria onde havia tristeza, esperança onde havia desespero, luz onde havia trevas. Seguiu, pedindo a Deus muito mais contentamento em consolar, compreender, Amar... acreditou na ação como o melhor exemplo, acreditou que o maior prêmio não era receber, era dar. Eu acredito em sua intercessão e tenho absoluta certeza que ele continua acreditando na  humanidade, na irmandade, na vida, na paz, no bem e em todos os valores que em seu tempo cultivou.


O Amor, a coragem, a ternura, a compaixão, a simplicidade, a alegria, a obediência de Francisco... que tudo isso seja fonte de inspiração. Peçamos também ao Mestre a graça de ter o mesmo contentamento, a graça de levar a Paz e o Bem que o nosso querido "Chiquinho" levou a tantos lugares. E ainda leva através de tantos homens e mulheres que dão continuidade ao que ele começou.


Neste tempo tão sedento de Paz e Bem, sejamos "Franciscos" e "Franciscas", cheios de esperança, coragem e vontade para lutar até o fim. Cada um do seu jeito, mas com o mesmo propósito: Construir um mundo melhor.  Um mundo mais fraterno. 

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Sofrimento.




"Alegrai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação,
perseverai na oração" (Romanos, 12:12).


O sofrimento sempre foi um "bom" tema e fonte de inspiração para muitos poetas. Impossível desviar os olhos desse acontecimento. Causa de muitos desgastes, causa de muitas tristezas, causa de muita reflexão... O sofrimento é uma das realidades mais recorrentes. Nós o experimentamos o tempo todo. A história de cada um de nós é marcada por grandes e pequenos acontecimentos. E, muitos deles, causam sofrimentos. É opcional sofrer? Querendo ou não, sofremos. O sofrimento tem o poder de nos construir ou destruir. Depende da postura que assumimos diante dele.

É difícil falar de sofrimento sem lembrar do calvário de Jesus. Ele viveu momentos de angústia suprema, sentiu a dor física, a dor da decepção, medo... mostrou que a cruz não foi uma encenação. Se Jesus sentiu tudo isso, quem somos nós para não sentir? O sofrimento é assim: Quando não chega como convidado, chega sem convite. E entra. E dói. Não há como camuflar, como maquiar, mas é possível suportá-lo com serenidade e maturidade, é possível decidir o que fazer a respeito, é possível lutar contra o tempo de sua permanência. Só é impossível não sofrer. Você, que me lê agora, talvez esteja pensando: "Eu não convido o sofrimento para entrar em minha vida." Ah, convida sim. Convida a cada vez que age contra si ou contra os outros. Nesse momento, cai sobre os ombros o peso das escolhas erradas. Se semeamos o bem, não podemos colher outra coisa senão o bem. Acredito profundamente que colhemos o que plantamos, mas acrescento que, sem percebermos, há os que invadem o nosso território e semeiam a destruição. Invadem e destroem tudo aquilo que foi cuidadosamente plantado, construído... deixam de brinde o sofrimento e uma mancha difícil de apagar. Não medem esforços para destruir. Não medem esforços para deixar o outro no fundo do poço. Quebram a confiança. Caluniam. Enganam. De repente, parece que o mundo desabou. O mal foi feito. É preciso agir com a verdade. Não podemos nos deixar vencer pelo mal. "Não se deixem vencer pelo mal, vençam o mal com o bem", (Romanos, 12:21). São decepções, injustiças... perdas. Volto novamente à cruz de Jesus. Que injusta cruz... apesar disso, Ele carregou até o fim. Carreguemos as nossas... justas ou injustas.

Quantas vezes, diante da dor, suplicamos: "Meu Deus, afasta de mim esse sofrimento"? Muitas vezes. A verdade é essa: Ninguém quer sofrer. O milagre que devemos pedir a Deus, não é que Ele afaste o nosso sofrimento, porque nem mesmo Jesus foi poupado de sofrer. Peçamos a Deus o milagre de ter um coração semelhante ao de Jesus. E, diante da dor, da decepção, da mentira, da injustiça, do medo, do erro, da ofensa, da incompreensão, da ansiedade, da angústia... peçamos força, coragem, maturidade e capacidade para lidar com os nossos limites e com os dos outros. De olhos abertos, conscientes e com uma postura madura, nos tornamos mais fortes e comprometidos a avançar e lutar. 

Quando a situação foge do controle e a solução não está ao nosso alcance, confiemos em Deus. Ele vê tudo. Quando as mãos humanas não alcançam, entram em ação as mãos divinas. "Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei", (Mateus, 11:28)Há um propósito em tudo que nos acontece. Tudo tem um porquê. Às vezes, não entendemos o agir de Deus, mas Ele não falha... sempre faz o melhor para a nossa felicidade. "E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito", (Romanos , 8:28). 

Que ninguém desista de lutar. Que ninguém desista de acreditar que é possível superar, recomeçar, reconstruir e recuperar o que foi perdido. Que a esperança seja sempre uma luz apontando o caminho. Se cairmos, que seja aos pés do Senhor. Se chorarmos, que seja para regar a fé. Se a cruz pesar, Ele será a nossa força. "Pedi, e vos será dado; buscai e achareis; batei e abrir-se-vos-á. Porque todo o que pede, recebe; e o que busca, encontra; e a quem bate, abrir-se-vos-á", (Mateus, 7:7-8).

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Gente como a gente...




"Ainda há gente que não sabe, quando se levanta, de onde virá a próxima refeição,
 e há crianças com fome que choram." Nelson Mandela


Quantas vezes passamos por uma calçada, uma praça, uma marquise, um viaduto... e encontramos um morador de rua indo e vindo, dormindo, sentado, jogado? Muitas vezes. Por que essas pessoas estão nas ruas? Você, que me lê agora, o que sentiu ao passar por uma dessas pessoas? Qual foi o seu primeiro pensamento?

São várias as razões que levam uma pessoa a viver e morar nas ruas. As mais apontadas são o alcoolismo, a drogadição, problemas psicológicos, desavenças familiares, desemprego e a falta de uma moradia convencional. Alguns dormem em albergues/abrigos, porque se sentem mais seguros... quando conseguem. Outros, preferem as ruas, a liberdade para o uso de drogas e álcool. Assim, todos os dias, calçadas se transformam em camas. Eles vivem sem endereço, sem rumo, sem esperanças, sem oportunidades. É triste a realidade da população em situação de rua. Muitas vidas. Muitas histórias. Muitos conflitos. Falta saúde. Falta tudo. Cerca de 79% dessas pessoas fazem uma (apenas uma) refeição todos os dias e 19% se alimentam em dias alternados. Poucos, trabalham informalmente, tendo rendimentos mínimos. Esses são dados que fazem parte de uma pesquisa realizada pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome.  

No maranhão, assim como em todo o país, é difícil estimar a quantidade exata das pessoas que vivem nas ruas, principalmente, porque essa população não está inclusa no censo demográfico do IBGE. O número é absurdo e muitos não conseguem se reinserir na sociedade. Socialmente invisível, essa gente passa a vida jogada à própria sorte, com os direitos básicos de cidadania negados. Além da vida que já levam, são, constantemente, vítimas da violência e ainda sofrem a higienização social. Ações de retiradas arbitrárias e involuntárias constituem a higienização social. A expulsão, o tratamento inadequado não passam de preconceito, medo e inércia dos que reclamam. A verdade é que, por trás da aparência, quase sempre, grosseira, marcada pelos maus tratos, há muita fragilidade. Para a sociedade, quem está na rua é bandido e não presta. Atravessam a rua, mudam de calçada, mas não querem passar perto. Esquecem que os bandidos mais perigosos estão por aí, vestidos com seus ternos caros (nada contra os ternos), lutando por qualquer coisa (menos pelo povo)... mas essa é outra história. Sabemos que é grande a violência nas ruas. Sob o efeito das drogas, álcool e fome, alguns moradores de rua cometem delitos, mas essa não é uma prática exclusiva deles. Há os que não fazem isso e nem usam drogas. Aqueles que praticam os maiores delitos nas ruas, não moram nelas, não dormem em becos escuros, sobre papelões ou sob as luzes dos postes. Na rua também há gente de bom caráter, gente precisando de ajuda... gente como a gente.

As ações das organizações não governamentais e Igrejas, são lindas e levam alimento para o corpo e a alma. Apesar dos esforços, é fundamental a implementação de ações mais firmes e conjuntas entre as organizações, Igrejas e os diversos setores dos governos, para não só assegurar os direitos, mas também para permitir que essa gente sofredora volte a ter um lar, uma vida digna. As políticas públicas devem se voltar para a reintegração à rede familiar e à sociedade. É exatamente isso que prevê o decreto nº 7.053 de 2009 que ainda não foi implantado na maioria dos estados. Que eles sejam reconhecidos como sujeitos de direitos e tenham condições de desenvolvimento social pleno, como também prega o Artigo 6º da Constituição Federal: "São direitos sociais: a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados."

Participo de ações ligadas à população em situação de rua e confesso que, depois de tantos anos, não vejo muitas mudanças por parte do "poder maior". Enquanto isso não acontece, estaremos lutando, fazendo algo mais, com coragem e esperança. Como disse Nelson Mandela: "Devemos promover a coragem onde há medo, promover o  acordo onde existe conflito e inspirar esperança onde existe desespero". Queremos teto sobre todas as cabeças; queremos alimento em todas as mesas; queremos passar pelas calçadas sem a sensação de estarmos pisando na cama de um irmão; queremos oportunidades para que esse povo possa viver como precisa.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

João Batista alegrou o mundo.


"É necessário que ele cresça e eu diminua" (Jo 3, 29)


É uma honra ter em meu blog, o lindo e pertinente artigo do amigo Pe. Geovane*. Agradeço a ele pela delicadeza da partilha. Com satisfação transcrevo, abaixo, suas palavras.

"São João Batista é lembrado como uma pessoa que viveu com muita seriedade e com muito rigor, na austeridade e na penitência, anunciador da verdade e da justiça, prometendo tempos bons e o futuro tão esperado pela humanidade. Foi consagrado de tal modo, que ainda no seio materno, ele exultou com a chegada do Salvador da humanidade e seu nascimento trouxe grande alegria ao mundo, na realização de sua promessa, com tempos novos, tempos messiânicos. É a esterilidade de seu Pai, Zacarias, que se transformou em fecundidade e o homem mudo, passou a ser um profeta corajoso e exuberante (cf. Lc 1, 57s).

João Batista nos ajuda a perceber a insatisfação vivida pelo povo brasileiro diante do dinheiro público em obras faraônicas, de pouca utilidade, que satisfaz sim, a vontade das empreiteiras e dos políticos, mas léguas e léguas distantes das reais necessidades da população. Por isso mesmo, a juventude não concorda com os elevados gastos nos estádios da Copa, num país que geme as dores do parto no transporte público, bem como o desvio dos recursos nas grandes obras, nas estradas sem conservação, no mísero salário dos professores públicos, sem falar na realidade precária da saúde e no avanço do agronegócio.

Um homem foi enviado por Deus, e o seu nome se chamava João. O Evangelho de São João, logo no início, depois do prólogo, trata do batismo realizado por João no Rio Jordão, batizando o autor do batismo nas águas santificadas, tendo como ponto alto o seu encontro com Jesus, que ao ver passar, reconhece-o e assim se expressou: “Eis o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo” (Jo 1, 29).

Para vivermos bem e realizados, é necessário que se faça o seguimento de Jesus de Nazaré, a partir da exigência, que tem origem no seu projeto de amor para conosco, através da experiência central e decisiva, na obediência ao projeto do Pai em favor da humanidade, a exemplo de João Batista, que recebeu a imprescindível missão de testemunhá-lo como luz e desse modo preparar um povo bem disposto a acolhê-lo.

Foi ele que preparou o povo para o início da missão pública de Jesus, dizendo com todas as letras que ele mesmo caminharia à frente do Cristo Jesus, anunciando que os sinais dos tempos chegaram e as promessas anunciadas por Zacarias estavam para se realizar. O seu vibrante convite foi o de acordar o povo do sono, muitas vezes profundo, para reconhecer o Salvador, como o sol que veio nos visitar.

No mundo em vivemos, diante das prioridades nos projetos megalômanos, muitas vezes em detrimento da pessoa humana, sem esquecer o meio ambiente, com todo seu ecossistema, guardemos como ensinamento e inspiração as palavras sábias e proféticas do glorioso São João Batista: "É necessário que ele cresça e eu diminua" (Jo 3, 29).

A afirmação de Jesus, “Eis-me aqui, ó Pai, para fazer a tua vontade” (Hb 10, 9), nos indica o caminho da verdade e da vida, através próprio Filho Deus, que ao se encarnar e entrar no mundo realiza a vontade daquele que o enviou. Daí a importância de olhar para a grandeza do precursor, do homem que se alimentava de gafanhotos e mel da selva, figura humana e divina, que recebeu o maior do todos os elogios do seu Mestre e Senhor, ao afirmar: “Dos nascidos de mulher, ninguém é maior que João Batista” (MT, 11, 11).

Deus nos dê a graça da esperança, de sempre sonhar com tempos novos, quando nos assegura que podemos ser maior que João Batista, transformando-nos em artífices do reino de Deus, na busca da justiça e da verdade, da solidariedade e da paz, no caminho do bem."

        
                                                                                                                         

*Padre da Arquidiocese de Fortaleza, escritor,  membro da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza, da Academia de Letras dos Municípios do Estado Ceará (ALMECE) e Vice-Presidente da  Previdência Sacerdotal - Pároco de Santo Afonso.